Vicente de Paulo, santo exemplo de caridade

“Se é verdade que somos chamados a levar, longe e perto, o amor de Deus, se devemos inflamar as nações, se temos vocação para comunicar o fogo divino ao mundo inteiro, quanto devemos nós mesmos arder deste fogo divino?!” (São Vicente de Paulo)

“Que aquele camponês das Landes, convertido pela graça de Deus em gênio da caridade, nos ajude a todos a por mais uma vez as mãos no arado – sem olhar para trás – para o único trabalho que importa, o anúncio da Boa Nova aos Pobres.” (Papa João Paulo II)


São Vicente de Paulo nasceu na Terça-feira de páscoa, em 21 de abril de 1581, em Pouy, no sul da França, filho de João de Paulo e de Bertranda de Moras. Deram-lhe o nome do padroeiro de Dax, S. Vicente de Xaintes, primeiro bispo dessa Diocese.

Ordenou-se padre aos dezenove anos, e logo passou pela primeira grande provação, ao ser capturado e vendido como escravo. Mas conseguiu a liberdade, e no cargo de Capelão da Rainha foi incumbido de distribuir esmolas aos pobres e de visitar os enfermos no hospital de caridade. Foi nesses contatos que primeiro sentiu a intensa compaixão pelos pobres que foi a grande marca de toda a sua vida, e também o desejo de ser apoio e conforto para todas as vítimas das fraquezas da alma e do corpo.

No trabalho em favor dos condenados às galés chegou a se colocar no lugar de um deles para libertá-lo! Sua piedade heróica conferiu-lhe o cargo de Capelão Geral e Real da França. Percebendo o abandono espiritual dos camponeses, fundou a Congregação da Missão dos Padres Lazaristas, para a evangelização do "pobre povo do interior", como ele chamava. Foi num apelo que o padre Vicente fez durante um sermão em Châtillon que nasceu o movimento das Senhoras Damas da Caridade.

Face à existência de grande número de enfermos, com a colaboração de Santa Luíza de Marillac, formou sob sua orientação a Companhia das Irmãs de Caridade. Foi ele também responsável pela organização de retiros espirituais para leigos e sacerdotes através das famosas conferências das terças-feiras. Muitos acham que a maior virtude de São Vicente é a caridade, entretanto sua humildade poderia ser ainda maior. Não recebia com agrado os boatos da possibilidade de ser elevado ao cargo de Bispo ou Cardeal, pois desejava continuar trabalhando ombro a ombro com os mais humildes. Foi membro do Conselho de Consciência por respeito à Rainha Ana d'Áustria, porque visava o bem da Igreja.

São Vicente de Paulo foi um verdadeiro "Pai dos Pobres", um reformador do clero no melhor sentido, além de um gênio na administração das coisas de Deus. Basta dizer que as Conferências Vicentinas, fundadas por Ozanam e seus companheiros, hoje espalhadas no mundo inteiro, vivem permanentemente de seus exemplos e ensinamentos. Segundo S. Francisco de Sales ele era o "padre mais santo do século". Faleceu em 27 de setembro de 1660 e foi sepultado na Igreja de S. Lázaro. Foi canonizado pelo papa Clemente XII em 16 de junho de 1737.

Dia 27 de setembro, festa de São Vicente de Paulo! Toda a Igreja e, em especial, a Família Vicentina, são desafiadas a celebrar, aprofundar, viver e divulgar a riqueza e a atualidade do testemunho de vida e da espiritualidade de São Vicente de Paulo.

Conhecido como “Pai dos Pobres”, “Gigante da Caridade” e “Arauto da Ternura e da Misericórdia”, São Vicente teve uma vida plena e fecunda de obras em benefício sobretudo dos pobres. De espírito dinâmico e empreendedor, tomou iniciativas, iniciou e liderou a execução de várias obras; foi um organizador das boas vontades, um formador de seus auxiliares, um formador de multiplicadores; não fez tudo sozinho, soube suscitar colaboradores, ganhou adesões entusiastas e despertou a criatividade dos que o apoiavam; e ainda, foi um colaborador leal em obras iniciadas por outros, sem pensar que só ele sabia fazer bem as coisas ou que só iriam dar bons resultados se fossem feitas por ele, do jeito dele.

Seu testemunho não se reduz e nem se esgota na fecundidade e na quantidade das atividades desenvolvidas. O que dá sentido, unidade e dinamismo à vida e à obra de São Vicente é o seu grande e apaixonado amor pela pessoa de Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, que São Vicente soube encontrar na pessoa dos pobres. Pobre que não queria ser pobre, São Vicente não idealizou os pobres. Ele foi até eles, viu os sofrimentos, a fome, o abandono pastoral, as lágrimas, os gritos, sentiu o mau cheiro e o desespero dos que morriam amontoados nos corredores dos hospitais. Aí descobriu, na face sofrida e faminta dos pobres, a imagem desfigurada de Cristo, sofrida e humilhada na Paixão.

Os pobres constituiram o caminho que levou São Vicente ao encontro consigo e com Deus. Sem cair em teorias abstratas e intimistas, descobriu, à luz do mistério da encarnação, que Jesus Cristo é o Divino Pobre, que se despoja e assume a pobreza para dar-se totalmente à salvação dos pobres – “O Senhor me enviou a evangelizar os pobres” (Lc 4,18). O espírito de Cristo é um espírito de caridade e de estima ao Pai. A verdadeira felicidade está, pois, em seguir e servir a Cristo que se faz presente e servidor nos rostos sofridos e injustiçados dos pobres. Percebeu que “não podemos garantir melhor a nossa felicidade do que vivendo e morrendo no serviço aos pobres, colocando-nos nos braços da Divina Providência e numa total renúncia de nós mesmos, para seguir Jesus Cristo”. Encontrou a alegria e a razão de viver em Cristo, o Verbo Encarnado, expressão máxima do amor misericordioso de Deus Pai, que enviou seu Filho para evangelizar os pobres.

O pobre é sacramento de Cristo. Servir o pobre é servir o próprio Cristo. Dizia São Vicente que, diante de um pobre, devemos “virar a medalha” e ali encontrar o próprio Cristo desfigurado em sua paixão. “Os pobres são nossos senhores e mestres”. São membros sofredores de Nosso Senhor, são nossos irmãos. Por isso, a exemplo de Nosso Senhor, é preciso servi-los, material e espiritualmente, com especial dedicação. A exemplo de Jesus, evangelizador dos pobres, é preciso ir ao encontro dos mais abandonados para deixar-se interpelar pela sua realidade concreta e pôr-se a serviço deles de modo efetivo, anunciando-lhes o Evangelho da caridade, da misericórdia e da solidariedade.

O amor a Jesus Cristo conjuga o amor a Deus e ao próximo, e deve ser um amor afetivo e efetivo, dentro de um profundo amor missionário à Igreja e totalmente comprometido com a evangelização e o serviço dos pobres, nas falas de São Vicente:

“A caridade está acima de todas as regras e é preciso, pois, que todas as coisas a ela se relacionem. É uma grande dama, é preciso fazer o que ela ordena.”

“A Missão é um dos maiores e mais necessários bens que conheço.”

“Acender o Fogo do Amor Divino em todas as pessoas é continuar a missão do Filho de Deus!” “É maravilhoso fazer conhecer a Deus, anunciar Jesus Cristo aos pobres, dizer-lhes que está próximo o Reino de Deus e que este Reino é para eles.”


Nesta tarefa de caridade e anúncio do Evangelho aos pobres, “Cristo é a regra da Missão”. “Se é verdade que somos chamados a levar, longe e perto, o amor de Deus, se devemos inflamar as nações, se temos vocação para comunicar o fogo divino ao mundo inteiro, quanto devemos nós mesmos arder deste fogo divino?!” Só um coração inflamado do amor de Deus é capaz de contagiar os outros. É necessário, pois, revestir-se dos sentimentos e atitudes de Jesus Cristo. Esta profunda convicção levou São Vicente a cultivar em sua vida e a propor aos seus colaboradores uma sólida espiritualidade evangélica, totalmente centrada em Cristo Evangelizador dos pobres. Uma espiritualidade da encarnação, onde fé e vida, oração e ação caminham juntas –“Amemos a Deus, meus irmãos, com a força de nossos braços e com o suor de nosso rosto”.

Na contemplação e no seguimento de Cristo evangelizador dos pobres, faz-se, pois, necessária uma vivência espiritual e missionária de desinstalação, de ida ao encontro do pobre, com um profundo espírito de estima, de misericórdia, procurando agir como Cristo, com simplicidade, humildade, mansidão, mortificação e zelo. Tudo seja em busca da vontade de Deus e impregnado por uma sólida vivência de fé, cultivada através de uma intensa vida de oração encarnada na realidade e no compromisso concreto – “Dai-me uma pessoa de oração e ela será capaz de tudo”.

Na descoberta de Cristo no Pobre e na adesão a Ele, São Vicente de Paulo, sempre dócil à ação do Espírito Santo, tornou sua vida toda teologal, fortemente marcada pela oração (adoração, agradecimento, súplica, intercessão, reparação), pelo Evangelho, pela Igreja; fortemente comprometida com os outros, sobretudo os mais pobres; fortemente marcada pelo Verbo e por seus valores, seus motivos, seus critérios, seus modos de agir. Seu testemunho constitui um fecundo e seguro caminho, uma verdadeira e evangélica escola de espiritualidade, onde hoje podemos nos matricular, vista da continuidade da missão de Jesus Cristo, que quer continuar a fazer o que fazia durante sua vida, por meio de nós. Finalizamos esta pequena homenagem com mais alguns dizeres, repletos de Luz divina, proferidos por São Vicente de Paulo:

“Vivemos em Jesus Cristo, pela morte de Jesus Cristo. Devemos morrer em Jesus Cristo, pela vida de Jesus Cristo. Nossa vida deve estar escondida em Jesus Cristo e cheia de Jesus Cristo.”

“Nosso Senhor Jesus Cristo é nosso pai, nossa mãe e nosso tudo.”

“Rogo a Nosso Senhor que Ele seja a vida de nossa vida e a única aspiração de nossos corações.”

“O que a Igreja precisa é ter pessoas evangélicas que trabalhem para purificá-la, iluminá-la e uni-la ao seu Divino Esposo.”



Veja imagens do corpo incorrupto de São Vicente de Paulo aqui


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Fonte:
Revista Convincente - Texto escrito por Pe. Eli Chaves dos Santos, CM (Riacho Fundo II - DF)